Bots da infelicidade
- Luciano Lopes

- há 1 dia
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Sábado e domingo são meus dias de terapia. Sempre fui uma pessoa mais caseira e simpatizo demais com o silêncio porque ele é despovoado de disfarces. O silêncio para mim é a vida sem máscara, nua e crua, em que a gente tem de lidar com os fantasmas que abarcam nossas revoluções. A gente os enfrenta, às vezes cai, mas se levanta com mais vigor, vence. E com café, tudo fica mais fácil!
É o tempo em que procuro me desprender do celular, ainda que seja difícil. Muitas mensagens, muitas notificações, muitas ligações. As não atendidas, as perdidas, as ignoradas. Celular é uma agulha com linha, que te costura na tela sem oportunidade de se descosturar das luzes da tela, do conteúdo divertido. Celular é um TDAH da eternidade: você entra para deixar uma mensagem de parabéns no post da prima e quando vê está perdido nas fotos de viagem daquela subcelebridade, dos corpos photoshopados, dos filtros, das postagens patrocinadas, comprando passagens, produtos, lendo mensagens de autoajuda...
Logo o celular, um instrumento poderoso de se construir relações, também destrói todas elas.
As pessoas perderam a vontade de costurar relações verdadeiras que perduram com o tempo e cordialidades que as deixam ainda melhores. Vemos amizades longevas terminarem com o clique do botão “deixar de seguir” das redes sociais. E todas as memórias construídas, de uma vida inteira de parceria feliz, perdem-se nos bloqueios que os aplicativos de mensagens instantâneas dispõem.
Difícil acreditar que a praticidade que a tecnologia traz também leva embora as energias e a nossa atenção para o que realmente importa. Afinal, é disso que o mundo virtual se alimenta, não é mesmo? Do tempo, dos sentimentos, das memórias que deixamos de criar com quem amamos para estampar a falsa imagem de que tudo está sempre bem. Saciam-se os bots e ao mesmo tempo abre-se um rombo na alma. Da porta para fora, o sorriso falso, a tour pela nova casa que vale milhões, a viagem dos sonhos nas Maldivas, o carro de luxo, as lipo lads que chapam barrigas. E, da porta para dentro, o colapso das emoções, o interior descarrilhado, as gorduras do vazio.
Esperto é quem descobre cedo que o melhor caminho de sair dessa prisão é não entrar nela.



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