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O muro da minha infância

Atualizado: 25 de out. de 2019




Quando eu era criança, sonhava ter um trabalho em que a escrita fosse a maioria do meu tempo. Até que o sonho se tornasse realidade, o muro que circundava a casa onde morava foi eleito para ser testemunha do meu caminho e das minhas escolhas.


Comecei sendo professor, aos 10 anos. Dava aula para estudantes imaginários. A turma era aplicada e aprendia em silêncio. A lousa era uma parede de cimento cru, que eu rabiscava com pedras de argila colhidas no trajeto até o colégio real. No meu muro de traçados solitários, números dividiam espaço com filosofias, trechos de poesias e clássicos da literatura brasileira.


E a hora do recreio?

Ah! A hora do recreio. O sinal da escola tocava em altos decibéis na minha imaginação e só era silenciado quando a minha mãe descia as escadas da varanda com um lanche, enquanto sorria ao me ver “ensinar aprendendo”. Meus pais nunca me impediram de escrever naquele muro. Sabiam, desde sempre, que minha inquietude precisava de descarrego. E eu só conseguia fazer isso escrevendo - o meu jeito de aprender era o esgotamento dos assuntos.

Tempos depois, larguei as aulas para embalar o sonho de ser um jovem escritor. Naquele muro eu registrava, também, a inocência de um futuro incerto. Ele era o universo de minhas ilusões. Ali, haviam anseios, esperanças e bonanças, mas também a possibilidade do encontro com a dor, a tristeza, a solidão. O muro da minha infância foi, na verdade, o meu primeiro livro.


Passaram-se 30 anos desde a última vez em que rabisquei aquela parede. Hoje, a casa tem outros moradores. A classe está vazia, os alunos imaginários se formaram e ganharam a eternidade da recordação. Não sei mais qual é a cor do muro. O professor mudou de cidade e de ofício – virou jornalista. A sala de aula e o papel a ser preenchido agora são a vida. Nua e perversa e, ao mesmo tempo, deliciosa e impressionante.


Hoje, me perco em exercícios de paciência no trânsito, enfrento a crueldade de um mundo em que as ilusões cegam a realidade. Esse mesmo mundo é cheio de boletos. Nesse mesmo mundo, as amizades te cobram diplomas – você tem sempre de ser graduado segundo os pensamentos e as vontades de alguém.


Sem darmos atenção às coisas mais simples e importantes da vida, passamos o nosso tempo valorizando bobagens. Aprendemos no grito e aos gritos, sem o encanto da descoberta do conhecimento, das gentilezas que a sabedoria traz. Que saudade do muro da minha infância, que ensinava, protegia das buzinas, do estresse no trabalho, dos vizinhos barulhentos, das torcidas desorganizadas de respeito e fraternidade, da paz roubada, da maldade que se esconde em alguns sorrisos...


O muro da minha infância registrou belas lições, isso é fato. Mas não me preparou para a realidade crua da vida. A fórmula de Bháskara não impediu que eu fosse assaltado à noite, certa vez, e que o ladrão colocasse um facão no meio do meu peito, disparando ameaças e pressionando a ponta do objeto a ponto de furar minha camisa.


As teorias de Newton não me ajudaram com a burocracia das instituições públicas. Nem com amigos traidores e falsos. Nem com amores egoístas, que queriam prender meu coração para sempre sem permitir que ele batesse na liberdade do sentir verdadeiro. Nem de cobranças indevidas de operadoras de telefone, internet, TV a cabo.


O mundo real não tem tempo para ingenuidades. Aqui, fora do muro, muitas teorias e conceitos que ganharam vida naquela parede de tijolos não me serviram para nada em determinados momentos. Mas eles estão guardados e, se preciso, serão revividos na argila de novos deslumbres. E está tudo bem, porque, durante a vida, nos deparamos com vários muros que precisam ser derrubados e saltados. Ou apenas escritos.


O muro da minha infância tinha uma porta, que me mostrou que a gente aprende tanto dentro quanto fora dele. E quando a atravessei, a vida, com seu tempo menino e seus versos diretos, me cantou que afeto e lucidez são imprescindíveis para alguém que hoje celebra a escrita como a maioria de sua luta.

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