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O que aprendi na pandemia

Atualizado: 30 de jan. de 2022



Sentei há pouco na cadeira em frente à mesa do computador. A janela do escritório que improvisei em casa está entreaberta. O céu está nublado e a cortina balança devagar com o pouco de brisa que pede passagem.


Antes de dormir, na noite passada, fiquei pensando em como a pandemia mudou a vida da gente e o que ela nos ensinou. Às vezes, tenho a sensação de que ela nos isolou para repensarmos a nossa relação com o mundo, o outro, nós mesmos. É como se vivêssemos um período de transição, como um ritual de passagem. E ficamos à espera da benção para selar - e encerrar - essa mudança.


Nesses 262 dias em casa, dei valor a um monte de coisas simples. O silêncio, principalmente, mesmo meus vizinhos deixando claro que ruído é algo que eles ainda não querem desapegar.


Também desenvolvi um novo hábito: ouvir música instrumental. Isso inclui jazz, piano, violino. E sons da natureza. Em meu momento de oração, antes de dormir, coloco meu fone de ouvido e ouço o barulho de chuva, correnteza e pássaros ecoar no meu cérebro. Relaxamento via mp4 para uma cabeça que busca harmonia para reequilibrar as energias.


Encontrei na cozinha talvez a mais barata e eficaz terapia: preparar alimentos. Aprendi a fazer bolo de laranja! Mandei a foto no grupo de WhatsApp da família e foi um sucesso. Compartilhei a receita com minha mãe e, animada, ela fez o bolo e postou o resultado. A cozinha, quem diria, se tornou uma forma de reconexão.


Ah! Comprei mais plantas para o apartamento: se ainda não posso viajar e ficar em meio à natureza, por que não trazê-la para dentro de casa? Samambaia, jiboia, palmeira-ráfia, tão companheiras, esverdeando o ambiente com sua presença.


Por fim, tem o ofício, a profissão. Na pandemia e em home office, as demandas se multiplicaram, é verdade. Mas o fazer agora tem um gosto diferente. É como preparar uma receita: você tem todos os ingredientes para que ela seja um sucesso. A dica é polvilhar bem as palavras, por a mão na massa das frases, dar valor ao tempo da inspiração. Quando você menos pensa, ele está ali: trabalho bem feito, no ponto certo, sabor de missão cumprida.


Aprendi que a pandemia tolheu os abraços, mas também afastou de nós quem não os merece. Assim, sobra mais para quem realmente dá valor ao que somos - e não ao que temos para oferecer. A pandemia nos distanciou da família e dos amigos, mas também nos deixou mais próximos da verdade absoluta da vida: simplicidade é o que importa. E é nela que, mesmo longe, nossos afetos se aproximam.


Aprendi a gostar de casa nesse período de isolamento. Aprendi a ter paciência. Aprendi que a evolução se dá a passos lentos. Aprendi a dar valor ao trabalho, à vida, a quem amo, a quem escolhi compartilhar meu tempo, minha presença, minha atenção. Aprendi que não há fracassos, apenas lições. Aprendi que vale mais criar boas memórias do que ter um carro de luxo ou telefone de última geração. Aprendi, enfim, a delícia que é reaprender.




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