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Pôr do lúcido

Atualizado: 30 de jan. de 2022

A avenida engarrafada e o moço ali. Encostado na grade do viaduto, contemplava sozinho o pôr do sol enquanto outros pedestres passavam por ele. Indiferente aos olhares, seguia hipnotizado pelo espetáculo de luzes amarelas e vermelhas que circundavam a bola de fogo do céu.


Um pouco mais atrás, eu, dentro do carro, olhava pela janela aquele moço com mochila nas costas. O que ele estaria pensando? Na família que está longe? No amor perdido? Estaria rezando? Ou seria apenas saudade de alguém?


Enquanto tentava, em vão, advinhar por onde viajava a imaginação daquele jovem, fui interrompido pelas buzinas. Alguém mais à frente demorou um pouco a acelerar o carro. Para você ver. A impaciência agora tem carteira de motorista. Pedi em voz alta mais gentileza no trânsito, mas o único que parecia ser gentil naquele momento era o moço que namorava o pôr do sol. 


O único que, diante da insensibilidade geral, era gentil consigo, permitindo-se, ao final de uma tarde de quarta-feira, fitar o céu. O único que ouvia o silêncio e a beleza do adormecer solar, algo raro em uma cidade com arranha-céus escondendo o horizonte. O único ser humano ali, lúcido, neste grande poema que é a vida. E que a maioria de nós ainda não aprendeu a apreciar e declamar.



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